Artigo Publicado na revista TerceiroMilênio | JAN/20111
Shifu Jan Silbertorff ministrando correções em um de nossos alunos, durante seminário em Salvador-BA [Foto :: Soraya Lacerda]
Guru, dalai, sensei, shifu. Várias culturas têm um termo para definir aquele que guia, o mestre, o tutor. Nas artes marciais o termo assume uma condição ainda mais especial, a de que há a aceitação do ensinamento, por um lado, e do aprendizado, por outro. O Tai Chi Chuan atravessou milênios e chegou até nós graças a esse conceito, de passar para as gerações seguintes um aprendizado balizado por séculos de sabedoria. De mestre para discípulo.
O princípio do Tai Chi vem do Taoísmo. Os criadores basearam esta arte na observação da natureza, desde os animais à interação dos mais diversos elementos. Dai as três orientações: vencer o movimento através da quietude, a dureza através da suavidade e o rápido através do lento. Tão importante quanto aprender os movimentos é entender como os mestres foram construindo o Tai Chi desde Chen Wangting, Chen Changxing e Yang Luchan até chegar aos dias de hoje, com Chen Xiaowang.
É um pensamento chinês de que para um mestre é fácil reconhecer e escolher os bons discípulos, mas para um discípulo é difícil reconhecer e selecionar um bom mestre, pelo simples fato de que este ainda está no início da caminhada e não tem como discernir. Maior que o desafio de aprender a prática do Tai Chi, é ensinar essa arte.
Numa sociedade caracterizada pelo consumo desenfreado, onde quem tem dinheiro pode tudo, o Tai Chi se fortalece na própria dicotomia ensinada no princípio do Yin e do Yan. Nem todas as riquezas materiais no mundo são capazes de fazer com que o aluno aprenda. Somente com a humildade e dedicação ele pode conquistar o ensinamento.
Nessa caminhada, o Shifu é uma figura extremamente importante. Uma das características do Tai Chi é que, semelhante à arte da caligrafia, cada um tem a sua própria maneira de realizar as posturas, porém dentro de certo limite. Ao aproximar-se cada vez mais das formas corretas, orientado devidamente por um mestre, é possível entrar no fluxo do Qi e extrair a saúde, a paz e a tranqüilidade que a prática proporciona.
A relação mestre/discípulo, baseada em reciprocidade e aceitação, é tão profunda que o aprendizado ultrapassa o simples ensinamento. O Shifu ensina, transforma, transmuta, altera, permite revelar o que há de melhor naquele que se propõe a aprender. O Tai Chi Chuan desenvolve espiritualmente e faz renascer o discernimento e a percepção, ensinando como usar a serenidade para vencer as adversidades.