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| Foto :: Waldemir Barreto |
Artigo publicado no Jornal Lotus Bem Estar – ABR/2012
Definir o conceito de educação é um desafio tão grande quanto o de educar. No Brasil, a
Lei de Diretrizes e Bases para a Educação (Lei 9394/96) explicita em seu primeiro artigo que “A educação abrange processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”.
Mas é possível transcender essa definição quando se admite que educar também passa pela construção de novos conhecimentos sobre si mesmo e sobre o mundo, pelo o crescimento pessoal e pela melhora do relacionamento humano. Educar é um processo constante e contínuo e cada sociedade tem uma maneira própria de desenvolver um sistema buscando formar indivíduos melhores.
A China, por exemplo, surpreendeu o mundo em 2010 quando a província de Xangai tirou o primeiro lugar em todas as áreas aferidas (matemática, ciências e leitura) no mais importante e respeitado teste internacional de qualidade educacional, chamado Pisa. Além das disciplinas tradicionais, os chineses praticam o Wushu nas escolas públicas ou particulares durante as aulas de educação física. Wushu significa literalmente “Arte da Guerra”, mas quando se analisa o par de caracteres que compõe o termo encontra-se que Wu significa “Por fim a violência” e Shu, “Arte” ou “Método”. Logo, Wushu é um “Método de por fim a violência”.
As artes marciais têm como objetivo propiciar o desenvolvimento psicomotor amplo que vai desde o raciocínio lógico e a socialização até a resistência física e a coordenação motora geral. Na China centenas de estilos de arte marcial estão catalogadas e são classificados em duas escolas: Waijia ou escola externa, e Neijia ou escola interna. Na primeira se incluem a maior parte dos estilos de Wushu e na segunda os estilos tradicionais, como o Tai Chi Chuan, que considera para a prática a consciência do espírito e da mente.
Boa parte das artes marciais chinesas estimulam os valores morais, éticos, de valorização pessoal e de autoconhecimento e está ligada às práticas medicinais há muito consolidadas e às três maiores correntes filosóficas do Extremo Oriente – o Confucionismo, o Budismo e o Taoísmo.
Um dos maiores divulgadores das artes marciais no Ocidente,
Bruce Lee, iniciou o estudo do
Wing Chun aos 13 anos de idade, mas estudou diversos tipos de artes marciais ao longo de sua vida como o
Tai Chi Chuan. Aprendeu o inglês e cantonês, se formou no Edison Technical School, de Seatle e recebeu o título de bacharel em Artes em Filosofia pela Universidade de Washington. Pesquisador sobre artes marciais, Lee dedicou sua vida à análise das teorias e práticas de sistemas de luta. Criou o estilo chamado
Jeet Kune Do (O caminho que intercepta o punho/pé) essencialmente baseado na filosofia advinda da corrente Taoísta, com influências do Budismo Zen e de Jiddu Krishnamurti.
Estes dois exemplos nos fazem refletir sobre o preconceito que ainda pode existir a respeito das artes marciais. O país onde a prática se ensina na escola mostra para o mundo que bons índices de educação não são necessariamente realidade apenas em países ricos como Finlândia ou Canadá. No Brasil, onde se busca índices aceitáveis de educação, pode-se sim estimular desde a mais tenra idade a disciplina e o desenvolvimento por meio de técnicas como o Tai Chi Chuan.
Lao Tsé, a quem se atribui a autoria do
Tao Te Ching, o “
Livro do Caminho e da Virtude”, já apregoava que “aquele que vence os outros é forte, mas aquele que vence a si mesmo é poderoso”. Talvez o lendário Mestre quisesse nos fazer pensar a respeito da educação como um caminho onde o maior desafio é oferecer as ferramentas para que cada um possa, antes de tudo, vencer a si mesmo.
Diretor do IFTB